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| Estação de São Francisco - Alagoinhas |
O trem do subúrbio fez sua última viagem. Era o último trem de passageiros da Bahia. Triste partida, sem choro, nem vela, apenas as queixas dos suburbanos pobres que ainda teimavam em embarcar nos seus velhos e maltratados vagões. O desconforto era compensado pelo baixo valor da tarifa e pelo prazer de desfrutar, durante a viagem, de uma das mais belas paisagens da Bahia.
O trecho de 13,5 km de ferrovia, que agora está sendo desativado, foi o primeiro construído na Bahia. A inauguração festiva da estação de Paripe, em 1860, marcou o inicio da construção da grande ferrovia, que iria ligar Salvador ao Rio São Francisco. Um projeto ambicioso, que três anos depois chegou a Alagoinhas, mas demorou mais trinta anos para chegar às barrancas do Grande Rio do Sertão.
Vi a noticia da ultima viagem na televisão. Não moro no subúrbio, mas fiquei triste, não só porque isso vai acarretar mais dificuldades na vida de pescadores, marisqueiras, biscateiros e desempregados em geral, que usavam o trem para conseguir ganhar o pão de cada dia no comércio da Calçada ou na Feira de São Joaquim. Mas, também, porque guardo com carinho as lembranças das minhas viagens de trem.
Nasci e cresci em Alagoinhas, em um bairro operário, nos tempos em que a cidade ainda era o maior centro ferroviário da Bahia, parada obrigatória dos trens que partiam da Estação da Calçada com destino a Juazeiro, na beira do rio São Francisco, ou então Aracaju, em Sergipe.
Na infância e em grande parte adolescência, os trens fizeram parte do meu cotidiano. O apito do Trem Operário, que partia pontualmente às seis da manhã, levando os trabalhadores das oficinas de Aramari, era o meu despertador. Adorava caminhar equilibrando sobre os trilhos para encurtar o caminho para a escola. E invejava um primo mais velho, que era maquinista e viajava quase todos os dias para Salvador.
Viajei de trem, pela primeira vez, antes dos cinco anos, quando acompanhei meus pais numa vista a parentes no Sertão. Lembro pouco dessa viagem, a não ser o constrangimento que causei a dona Gila, minha mãe, ao vomitar na calça de linho impecável que o passageiro ao lado trajava.
Mas, na época, um dos meus sonhos era viajar em outra direção, conhecer o mar. Gostava de recortar e colecionar as fotos de barcos e paisagens marinhas que encontrava ao folhear revistas velhas. Meu avô Mathias, que era sertanejo, também não conhecia o mar e prometia que um dia a gente ia junto ver de perto o mar da Bahia.
- A gente acorda bem cedinho, pega o trem e vai conhecer o mar. Dá pra ir pela manhã e voltar à noite – disse ele, um dia, enquanto preparava as garrafas com infusão de cachaça com ervas e raízes, que ele vendia em sua pequena bodega.
Mathias nasceu e viveu a maior parte da vida no Sertão dos Tocós. Na seca de 1932, depois de perder quase tudo, embarcou em um trem com destino a Salvador. Terminou parando e ficando no meio do caminho, em Alagoinhas, onde já morava uma de suas filhas e onde teria melhores condições de sobrevivência.
Eu ainda não havia completado seis anos quando meu avô morreu, de repente, sem cumprir a promessa. Imaginei que por conta disso, ia demorar muito para eu realizar meu sonho. Sabia que meu pai não gostava muito do mar por ter quase se afogado durante um breve período que ele havia passado morando e trabalhando em Salvador.
Mas, para minha surpresa, pouco mais de um ano depois da morte de meu avô, Mestre Paulo, meu pai, anunciou que precisava ir a Salvador, comprar uns materiais e pretendia me levar com ele. Quase não dormi à noite e acordei ainda de madrugada para me preparar para a viagem.
Imaginei que embarcaríamos no Trem Pirulito, o preferido das pessoas mais modestas, por ser mais barato, embora fosse mais demorado, por ir parando em todas as estações. Mas, nesse dia, eu e meu pai, ambos trajando as suas vestes domingueiras, embarcamos no Trem Marta Rocha, com destino à Cidade da Bahia.
O Marta Rocha era um trem expresso de passageiros que, nas décadas de 50 e 60 do século passado, ligava Salvador a Alagoinhas. Era um trem de luxo, com vagões de alumínio, amplos e confortáveis, puxados por locomotivas elétricas. O nome, obviamente, era homenagem à lendária baiana, que na época ganhou o Miss Brasil e não se tornou Miss Universo por ter duas polegadas a mais de quadril. Marta era ícone da beleza, um orgulho nacional. .
A viagem até Salvador durava pouco mais de duas horas, menos da metade do tempo gasto pelo “Trem Pirulito”. Passamos boa parte da viagem no vagão restaurante, depois mudamos para o vagão de passageiros, onde terminei dormindo, até ser despertado por meu pai um pouco antes da estação de Paripe. Abri olhos e vi o mar. Era a coisa mais linda que já eu já tinha visto, muito mais do que imaginava.
Era um dia de sol e mar azul e eu, colado na janela de vidro do Marta Rocha, estava hipnotizado vendo o desfilar das belas paisagens do subúrbio. Desembarcamos na estação da Calçada e passamos a maior parte da manhã percorrendo lojas de materiais. Só por volta de meio dia conheci o mar de pertinho, quando seguimos caminhando até a praia do Cantagalo. Tirei os sapatos e caminhei na areia, mas não tive permissão de me molhar. Ficaria para outro dia, disse meu pai.
Almoçamos moqueca na barraca de uma velha amiga de meu pai, na Feira de Agua de Meninos e seguimos de ônibus até o terminal da Praça Cairu. O antigo Mercado Modelo ainda reinava no largo, com sua rampa lotada de Saveiros. Visita rápida ao mercado e subimos o Elevador Lacerda, com destino à Cidade Alta, onde meu pai deveria comprar um sapato. De lá de cima, o mar da Bahia era muito mais bonito. Fiquei um bom tempo debruçado na balaustrada extasiado por tanta beleza e sequer me incomodei com o bullying de alguns garotos maiores, que ficaram rindo da calça-curta e dos meus sapatos sujos da lama de Agua de Meninos.
Retornamos para casa à noite. Embarcamos de novo no Marta Rocha. Eu estava feliz por ter realizado o sonho de conhecer o mar. Era coisa para nunca esquecer pelo resto da vida. Ainda no trem, pensei em meu avô e senti saudade.
Hoje, lembrando dessa viagem, tenho a certeza de que Mathias teria gostado de ter chegado a Salvador pelo seu caminho mais lindo: a estrada de ferro que ligava o mar ao grande rio do Sertão. (Foto da Estação de São Francisco)


