quinta-feira, 8 de abril de 2021

O TREM MARTA ROCHA E A PRIMEIRA VEZ QUE VI O MAR DE SALVADOR

 Estação de São Francisco - Alagoinhas



O trem do subúrbio fez sua última viagem. Era o último trem de passageiros da Bahia. Triste partida, sem choro, nem vela, apenas as queixas dos suburbanos pobres que ainda teimavam em embarcar nos seus velhos e maltratados vagões.  O desconforto era compensado pelo baixo valor da tarifa e pelo prazer de desfrutar, durante a viagem, de uma das mais belas paisagens da Bahia.

O trecho de 13,5 km de ferrovia, que agora está sendo desativado, foi o primeiro construído na Bahia. A inauguração festiva da estação de Paripe, em 1860, marcou o inicio da construção da grande ferrovia, que iria ligar Salvador ao Rio São Francisco. Um projeto ambicioso, que três anos depois chegou a Alagoinhas, mas demorou mais trinta anos para chegar às barrancas do Grande Rio do Sertão.

Vi a noticia da ultima viagem na televisão. Não moro no subúrbio, mas fiquei triste, não só porque isso vai acarretar mais dificuldades na vida de pescadores, marisqueiras, biscateiros e desempregados em geral, que usavam o trem para conseguir ganhar o pão de cada dia no comércio da Calçada ou na Feira de São Joaquim. Mas, também, porque guardo com carinho as lembranças das minhas viagens de trem.

Nasci e cresci em Alagoinhas, em um bairro operário, nos tempos em que a cidade ainda era o maior centro ferroviário da Bahia, parada obrigatória dos trens que partiam da Estação da Calçada com destino a Juazeiro, na beira do rio São Francisco, ou então Aracaju, em Sergipe. 

Na infância e em grande parte adolescência, os trens fizeram parte do meu cotidiano. O apito do Trem Operário, que partia pontualmente às seis da manhã, levando os trabalhadores das oficinas de Aramari, era o meu despertador. Adorava caminhar equilibrando sobre os trilhos para encurtar o caminho para a escola. E invejava um primo mais velho, que era maquinista e viajava quase todos os dias para Salvador. 

Viajei de trem, pela primeira vez, antes dos cinco anos, quando acompanhei meus pais numa vista a parentes no Sertão. Lembro pouco dessa viagem, a não ser o constrangimento que causei a dona Gila, minha mãe, ao vomitar na calça de linho impecável que o passageiro ao lado trajava. 

Mas, na época, um dos meus sonhos era viajar em outra direção, conhecer o mar. Gostava de recortar e colecionar as fotos de barcos e paisagens marinhas que encontrava ao folhear revistas velhas. Meu avô Mathias, que era sertanejo, também não conhecia o mar e prometia que um dia a gente ia junto ver de perto o mar da Bahia.   

- A gente acorda bem cedinho, pega o trem e vai conhecer o mar. Dá pra ir pela manhã e voltar à noite – disse ele, um dia, enquanto preparava as garrafas com infusão de cachaça com ervas e raízes, que ele vendia em sua pequena bodega.  

Mathias nasceu e viveu a maior parte da vida no Sertão dos Tocós. Na seca de 1932, depois de perder quase tudo, embarcou em um trem com destino a Salvador. Terminou parando e ficando no meio do caminho, em Alagoinhas, onde já morava uma de suas filhas e onde teria melhores condições de sobrevivência.

Eu ainda não havia completado seis anos quando meu avô morreu, de repente, sem cumprir a promessa. Imaginei que por conta disso, ia demorar muito para eu realizar meu sonho. Sabia que meu pai não gostava muito do mar por ter quase se afogado durante um breve período que ele havia passado morando e trabalhando em Salvador. 

Mas, para minha surpresa, pouco mais de um ano depois da morte de meu avô, Mestre Paulo, meu pai, anunciou que precisava ir a Salvador, comprar uns materiais e pretendia me levar com ele. Quase não dormi à noite e acordei ainda de madrugada para me preparar para a viagem. 

Imaginei que embarcaríamos no Trem Pirulito, o preferido das pessoas mais modestas, por ser mais barato, embora fosse mais demorado, por ir parando em todas as estações. Mas, nesse dia, eu e meu pai, ambos trajando as suas vestes domingueiras, embarcamos no Trem Marta Rocha, com destino à Cidade da Bahia. 

O Marta Rocha era um trem expresso de passageiros que, nas décadas de 50 e 60 do século passado, ligava Salvador a Alagoinhas. Era um trem de luxo, com vagões de alumínio, amplos e confortáveis, puxados por locomotivas elétricas. O nome, obviamente, era homenagem à lendária baiana, que na época ganhou o Miss Brasil e não se tornou Miss Universo por ter duas polegadas a mais de quadril. Marta era ícone da beleza, um orgulho nacional. . 

A viagem até Salvador durava pouco mais de duas horas, menos da metade do tempo gasto pelo “Trem Pirulito”. Passamos boa parte da viagem no vagão restaurante, depois mudamos para o vagão de passageiros, onde terminei dormindo, até ser despertado por meu pai um pouco antes da estação de Paripe. Abri olhos e vi o mar. Era a coisa mais linda que já eu já tinha visto, muito mais do que imaginava. 

Era um dia de sol e mar azul e eu, colado na janela de vidro do Marta Rocha, estava hipnotizado vendo o desfilar das belas paisagens do subúrbio. Desembarcamos na estação da Calçada e passamos a maior parte da manhã percorrendo lojas de materiais. Só por volta de meio dia conheci o mar de pertinho, quando seguimos caminhando até a praia do Cantagalo. Tirei os sapatos e caminhei na areia, mas não tive permissão de me molhar. Ficaria para outro dia, disse meu pai.

Almoçamos moqueca na barraca de uma velha amiga de meu pai, na Feira de Agua de Meninos e seguimos de ônibus até o terminal da Praça Cairu. O antigo Mercado Modelo ainda reinava no largo, com sua rampa lotada de Saveiros. Visita rápida ao mercado e subimos o Elevador Lacerda, com destino à Cidade Alta, onde meu pai deveria comprar um sapato. De lá de cima, o mar da Bahia era muito mais bonito. Fiquei um bom tempo debruçado na balaustrada extasiado por tanta beleza e sequer me incomodei com o bullying de alguns garotos maiores, que ficaram rindo da calça-curta e dos meus sapatos sujos da lama de Agua de Meninos.  

Retornamos para casa à noite. Embarcamos de novo no Marta Rocha. Eu estava feliz por ter realizado o sonho de conhecer o mar. Era coisa para nunca esquecer pelo resto da vida. Ainda no trem, pensei em meu avô e senti saudade. 

Hoje, lembrando dessa viagem, tenho a certeza de que Mathias teria gostado de ter chegado a Salvador pelo seu caminho mais lindo: a estrada de ferro que ligava o mar ao grande rio do Sertão. (Foto da Estação de São Francisco)


domingo, 19 de julho de 2020

O ISOLAMENTO E O MARECHAL MARTIN CAGÃO

No inicio do século XX, a Bahia foi atingida por uma grande epidemia de varíola, que matou cerca de 3 mil pessoas só em Salvador e que se espalhou por várias regiões do Estado. Na época, a principal estratégia de combate era isolar os doentes em barracões ou prédios afastados dos centros das cidades para evitar o contágio. Em muitos lugares, os mortos eram sepultados em áreas fora dos cemitérios. Passada a epidemia, muitos desses prédios foram demolidos, outros abandonados, que passaram a serem ocupados por famílias pobres sem teto, mendigos e doentes mentais.
Em Alagoinhas, o prédio do antigo isolamento e também o cemitério ficavam próximos do pequeno sítio do meu avô, Mathias, onde nasci e passei a minha infância. No sítio havia uma pequena sepultura cercada com grades de ferro e uma cruz de cimento pintada de branco de pouco mais de um metro de altura. Já estava lá, quando meu avô comprou o pedaço de terra, onde a maior parte da família passou a morar depois de chegar à cidade fugindo da seca que atingiu o Sertão dos Tocós, na década de 1930.
Era a única sepultura fora do cemitério que ainda restava nas redondezas. As outras covas haviam desaparecido em meio aos laranjais que foram surgindo na região nos anos pós epidemia. Por conta da amizade que mantinha com a família do morto, especialmente com a viúva, meu avô não permitia que a sepultura fosse removida e até ajudava a conservar o lugar, que era visitado periodicamente pela velha senhora, especialmente no Dia de Finados.
O isolamento era um prédio grande, quase todo em ruinas, que me inspirava medo e a todas crianças da vizinhança, não só pela sua aparência, mas também pela agressividade de alguns dos seus moradores, alguns deles doentes mentais ou alcoólatras, que costumavam jogar pedras ou ameaçavam bater nos garotos curiosos que se atreviam a se aproximar do lugar. Mas nem todos eram assim e costumavam circular pela vizinhança em busca de alimentos e bebida.
O marechal Martin era um deles. Um louco manso, que alternava momentos de lucidez e confusão mental. Apesar da idade avançada, ainda era um homem negro forte, que vestia sempre uma farda caqui, semelhante ao uniforme do Exercito, nos primeiros anos da República ou da PM naquela época. Era um dos frequentadores mais assíduos da pequena bodega, onde meu avô vendia, além das frutas colhidas no sítio, também verduras e uma grande variedade de cachaça com ervas, folhas e raízes que ele mesmo preparava e deixava de infusão por longo período.
Meu avô parecia gostar do marechal, conversava com ele, ouvia suas histórias e sempre o presentava com frutas ou um prato de comida. Mas não vendia e nem oferecia bebida para ele e nem para qualquer outro morador do isolamento. “É pra não ter confusão”, costumava repetir. Quando não estava escola, eu passava a maior parte do dia ao lado de meu avô. Gostava de ouvir as suas histórias e ajudá-lo a atender a freguesia da bodega. Numa dessas ocasiões, ele me contou que o marechal havia sido militar na juventude, tendo participado da Guerra de Canudos. “Ele ficou assim depois que voltou da guerra”.
O marechal carregava sempre uma espada de madeira amarrada na cintura, que costumava sacar sempre que se sentia ameaçado ou ofendido por alguém. Quase ninguém acreditava que ele havia sido militar e muito menos que havia lutado numa guerra. E isso o deixava irritado e mais ainda quando algum moleque o chamava de “Marechal Martin Cagão”. Aí coisa desandava. O marechal sacava a espada e partia furioso para cima do sujeito, gritando: “Ajoelha-te bandido, respeita teu superior ou vai morrer agora”. Geralmente, o moleque fugia, o marechal logo se acalmava e seguia seu caminho, altivo, num passo marcado como se estivesse em um desfile militar, sem tirar a mão de sua espada de madeira escura.
Pouco tempo depois da morte de meu avô, a família vendeu o sítio e nos mudamos para outro bairro da cidade. O isolamento foi demolido e nunca mais tive notícias do marechal. Mas nunca o esqueci, nem dos momentos que passei com meu avô. Agora, a pandemia parece ter nos aproximado no tempo e na memória.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

                         
                                     
                               


          O  ESCRIBA E O CURSO DE ADVERTÊNCIAS



Nos últimos tempos, principalmente depois da quarentena, me surpreendo às vezes tentando imaginar o nosso futuro, mas logo desisto, ao constatar a minha total incapacidade de compreender o que está acontecendo agora com o Brasil e menos ainda imaginar o que vai acontecer ou quando tudo isso vai terminar. Tento recorrer ao passado, mesmo sabendo que, dificilmente, encontrarei uma explicação razoável para o que está ocorrendo ou se é possível achar um caminho para sairmos dessa barafunda em que estamos metidos.  Mas, as coisas andam tão estranhas que, possivelmente, nem como farsa a história periga se repetir. 

Então, não corremos risco de voltarmos a uma ditadura militar? Não sei, mas aparentemente, as chances de isso vir a acontecer são mínimas, se levarmos em conta a postura dos militares que estão hoje nos quartéis (não os do governo), que em notas oficiais andam jurando obediência à Constituição e se esforçando para demonstrar que não são os mesmos e nem pensam ou agem como os milicos da ditadura militar. Dá para acreditar nisso?  Sinto que, nesse momento, o que nos resta é manter dúvida, mas também um pouco de esperança, acreditando que ainda temos salvação.

Durante alguns dias, fiquei matutando sobre essa possível mudança dos militares e terminei lembrando dos meus tempos de repórter na editoria de policia da Tribuna da Bahia, período em que o jornal tinha como redator chefe o imortal João Ubaldo Ribeiro. Meados dos anos 70, tempos sombrios, em que debate político estava interditado, havia temas proibidos e os milicos comandavam o circo de horrores a partir dos quartéis, ditando regras e fazendo advertências diárias aos civis que teimassem em ultrapassar os limites definidos por eles e levantassem a voz contra o regime. Na medida em que as vozes pela anistia e pela volta da democracia foram se multiplicando, ao longo do tempo, mais e mais advertências saiam dos quartéis. Era raro o dia em que os jornais não estampavam na capa uma manchete ou uma chamada com algum um chefe militar advertindo sobre isso ou aquilo que eles não iam tolerar.  

A Tribuna da Bahia, na época, não era um jornal de contestação ou de oposição aberta ao regime militar, embora o seu redator chefe fosse um intelectual de esquerda e sua redação composta quase toda por jovens - grande parte militante esquerdista, mas também por boêmios amadianos, descolados e cabeludos de todas as tendências e até democrata de direita. O que unia a todos, não tenho duvida, era uma forte aspiração por liberdade e a crença daqueles jovens de que fazer um trabalho decente, um jornalismo cada vez mais comprometido com a verdade, estávamos contribuindo com a luta, fazendo a nossa parte para ajudar a mudar o Brasil.   

Olhando esse velho cenário pelo retrovisor, não parece difícil imaginar as dificuldades enfrentadas por João Ubaldo para cumprir uma das suas tarefas diárias: escrever o editorial do jornal. Na maior parte dos dias, eram textos amenos, muitas vezes quase burocráticos, situados dentro dos limites do sistema, mas também houve vezes em que prevaleciam a ousadia e a irreverencia do escriba, como por exemplo, na vez que escreveu sobre a mania dos chefes militares de fazer advertências aos civis. E, num texto cheio de sarcasmo e ironia, disse suspeitar que o hábito de advertir, uma coisa que os militares mais sabiam fazer, era fruto de exaustivo treinamento. Inclusive, todo oficial de comando era obrigado a frequentar o curso de advertências ministrado pela Escola Superior de Guerra para aprender como controlar os civis.  

Não lembro se houve qualquer retaliação dos militares por conta desse editorial, mas rememorando esse episódio e não tive como evitar comparações entre os militares de ontem e os de hoje. E cheguei a conclusão de que, de fato, há diferenças entre os milicos do passado e os do presente. Os militares de hoje (exceto Heleno, Vilas Boas e uns poucos generais de pijama) perderam a mania de fazer advertências. Talvez porque o curso de formação que havia na ditadura tenha sido extinto e no seu lugar surgiu um treinamento intensivo de redação de notas oficiais em que o respeito à Constituição fosse exaltado e repetido exaustivamente, como um mantra em toda a oportunidade. 

O problema é que vira e mexe aparece um maluco nas proximidades do Palácio do Planalto gritando: “Eu sou a Constituição!” Se os milicos acreditarem nisso e saírem atrás do falso profeta, não terei mais dúvidas de que, na essência, tudo continua como antes e que as advertências ou coisa pior podem vir por aí. 

  





terça-feira, 29 de janeiro de 2019

. RACISMO: O BRASIL MOSTRA A SUA CARA.


  Nunca se falou tanto sobre racismo e nunca se praticou tanto abertamente o racismo no Brasil, como agora. A avalanche de atos racistas e a exibição cotidiana de preconceitos de todos os tipos na mídia tradicional e nas redes sociais mostram que, 130 anos após a Abolição, o racismo está aí firme e forte, mostrando a verdadeira cara da “democracia racial” brasileira. 

No final da década de 80, uma pesquisa da Universidade de São Paulo constatou que 95% dos brasileiros afirmavam não serem racistas, embora admitissem conhecer pessoas que eram racistas. Ou seja: “eu não sou, mas o vizinho é racista”. Agora, ao que tudo indica, a fase de negação está chegando ao fim. 

Não dá mais para esconder ou negar a maior de todas as nossas mazelas: o racismo institucional, matriz da nossa desigualdade, principal fundamento da exclusão e marginalização das populações indígenas e afrodescendentes brasileiras. É preciso ir mais fundo, ampliar o debate e encarar de frente essa mazela, sem rechaçá-la a priori, como sempre fizeram os conservadores de direita ou considerá-la um problema menor, como os progressistas da esquerda. 

O racismo à brasileira é uma construção antiga, perversa, gestada ao longo de quatro séculos de escravidão e que não se extingui com a Lei Aurea.  Ao contrário, adquiriu novo impulso depois da República com a adesão de expressivas parcelas da elite política e intelectual às teses eugenistas, que propagavam inferioridade dos negros, defendiam o embranquecimento da população com imigração em massa de brancos europeus, pois o país não teria futuro com uma população mestiça.

Essas ideias prevaleceram durante os primeiros 40 anos da República, período em que se consolidam não só os conceitos racistas, mas também a exclusão dos negros e mestiços da vida econômica e social do país. Na Bahia, terra de Nina Rodrigues, uma das figuras mais proeminentes eugenismo, a situação não era diferente do resto do país. 

A elite branca e conservadora considerava a “Cidade da Bahia” a Atenas do Atlântico Sul, onde os costumes e a cultura europeias prevaleciam, apesar de sua grande população negra e mestiça. Uma grande ilusão.  Salvador era, na verdade, a cidade mais africana do Brasil, a “Roma Negra”, como a batizou Mãe Aninha, do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1937,  

A teoria do embranquecimento entrou em desuso na década de 30, após a publicação de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freire, livro que abre caminho para criação do mito da “democracia racial” e inicia uma nova fase do racismo à brasileira, em que se festeja a mestiçagem, ao mesmo tempo em que se naturaliza todos os conceitos racistas massificados durante décadas pelos eugênistas.     
  
Quem tem mais de 60 anos já viveu dias piores. Tempos em que, como diz o poeta, “preto não entrava no Baiano nem pela porta da cozinha”, tempos em que ter pele escura era ser feio e não ter a “boa aparência” necessária à maioria dos empregos. Tempos em que para cultuar e festejar os Orixás era preciso autorização da polícia. 

Deve-se reconhecer, porém, que muita coisa na Bahia mudou desde o dia em que o Ilê Aiyê pisou pela primeira vez na avenida Sete, nos primeiros anos da década de 70. O carnaval se africanizou, a cidade se rendeu à magia e ao balanço da música dos blocos afros e, o mais importante, houve uma mudança substancial na autoestima da população negra, que passou a ter orgulho de sua ascendência, da sua cultura e, de certa forma, descobriu a sua própria beleza. 

É evidente que o que aconteceu em Salvador nesse período é algo importante: vivemos um processo de inclusão cultural da população negra inédito no país. Mas, deve-se reconhecer também que esse movimento, devido a sua debilidade politica, não teve força suficiente para abalar as estruturas do racismo e, muito menos, teve condições de impedir que, ao invés de avançarmos também na direção de uma inclusão econômica e social da população negra, se estabelecesse um processo de apropriação cultural que fez a fortuna de meia dúzia de artistas e empresários da elite branca.  

Mas, de qualquer forma, já temos meio caminho andado. É preciso seguir adiante, tendo consciência de que o racismo à brasileira é estrutural e que por isso tem que deixar de ser um problema que diz respeito apenas às vítimas. É um problema de toda a sociedade, principalmente da parcela branca da população, que é o agente propagador dessa mazela. 

Se não for assim, estaremos fadados ao fracasso, porque apenas com o esforço de combate dos ativistas do movimento negro e o exercício do politicamente correto pelos segmentos mais esclarecidos e democráticos, nas redes sociais, não conseguiremos nos livrarmos ou pelo menos reduzirmos o peso dessa herança maldita no coração do Brasil. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017