quinta-feira, 7 de maio de 2020

                         
                                     
                               


          O  ESCRIBA E O CURSO DE ADVERTÊNCIAS



Nos últimos tempos, principalmente depois da quarentena, me surpreendo às vezes tentando imaginar o nosso futuro, mas logo desisto, ao constatar a minha total incapacidade de compreender o que está acontecendo agora com o Brasil e menos ainda imaginar o que vai acontecer ou quando tudo isso vai terminar. Tento recorrer ao passado, mesmo sabendo que, dificilmente, encontrarei uma explicação razoável para o que está ocorrendo ou se é possível achar um caminho para sairmos dessa barafunda em que estamos metidos.  Mas, as coisas andam tão estranhas que, possivelmente, nem como farsa a história periga se repetir. 

Então, não corremos risco de voltarmos a uma ditadura militar? Não sei, mas aparentemente, as chances de isso vir a acontecer são mínimas, se levarmos em conta a postura dos militares que estão hoje nos quartéis (não os do governo), que em notas oficiais andam jurando obediência à Constituição e se esforçando para demonstrar que não são os mesmos e nem pensam ou agem como os milicos da ditadura militar. Dá para acreditar nisso?  Sinto que, nesse momento, o que nos resta é manter dúvida, mas também um pouco de esperança, acreditando que ainda temos salvação.

Durante alguns dias, fiquei matutando sobre essa possível mudança dos militares e terminei lembrando dos meus tempos de repórter na editoria de policia da Tribuna da Bahia, período em que o jornal tinha como redator chefe o imortal João Ubaldo Ribeiro. Meados dos anos 70, tempos sombrios, em que debate político estava interditado, havia temas proibidos e os milicos comandavam o circo de horrores a partir dos quartéis, ditando regras e fazendo advertências diárias aos civis que teimassem em ultrapassar os limites definidos por eles e levantassem a voz contra o regime. Na medida em que as vozes pela anistia e pela volta da democracia foram se multiplicando, ao longo do tempo, mais e mais advertências saiam dos quartéis. Era raro o dia em que os jornais não estampavam na capa uma manchete ou uma chamada com algum um chefe militar advertindo sobre isso ou aquilo que eles não iam tolerar.  

A Tribuna da Bahia, na época, não era um jornal de contestação ou de oposição aberta ao regime militar, embora o seu redator chefe fosse um intelectual de esquerda e sua redação composta quase toda por jovens - grande parte militante esquerdista, mas também por boêmios amadianos, descolados e cabeludos de todas as tendências e até democrata de direita. O que unia a todos, não tenho duvida, era uma forte aspiração por liberdade e a crença daqueles jovens de que fazer um trabalho decente, um jornalismo cada vez mais comprometido com a verdade, estávamos contribuindo com a luta, fazendo a nossa parte para ajudar a mudar o Brasil.   

Olhando esse velho cenário pelo retrovisor, não parece difícil imaginar as dificuldades enfrentadas por João Ubaldo para cumprir uma das suas tarefas diárias: escrever o editorial do jornal. Na maior parte dos dias, eram textos amenos, muitas vezes quase burocráticos, situados dentro dos limites do sistema, mas também houve vezes em que prevaleciam a ousadia e a irreverencia do escriba, como por exemplo, na vez que escreveu sobre a mania dos chefes militares de fazer advertências aos civis. E, num texto cheio de sarcasmo e ironia, disse suspeitar que o hábito de advertir, uma coisa que os militares mais sabiam fazer, era fruto de exaustivo treinamento. Inclusive, todo oficial de comando era obrigado a frequentar o curso de advertências ministrado pela Escola Superior de Guerra para aprender como controlar os civis.  

Não lembro se houve qualquer retaliação dos militares por conta desse editorial, mas rememorando esse episódio e não tive como evitar comparações entre os militares de ontem e os de hoje. E cheguei a conclusão de que, de fato, há diferenças entre os milicos do passado e os do presente. Os militares de hoje (exceto Heleno, Vilas Boas e uns poucos generais de pijama) perderam a mania de fazer advertências. Talvez porque o curso de formação que havia na ditadura tenha sido extinto e no seu lugar surgiu um treinamento intensivo de redação de notas oficiais em que o respeito à Constituição fosse exaltado e repetido exaustivamente, como um mantra em toda a oportunidade. 

O problema é que vira e mexe aparece um maluco nas proximidades do Palácio do Planalto gritando: “Eu sou a Constituição!” Se os milicos acreditarem nisso e saírem atrás do falso profeta, não terei mais dúvidas de que, na essência, tudo continua como antes e que as advertências ou coisa pior podem vir por aí. 

  





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